Nascido em 7 de dezembro de 1912, em Fortaleza, filho de José Esperidião de Carvalho e Maria Antero de Carvalho, João Antero chegou ao Rio em companhia dos pais e dos irmãos em 1917, indo morar na Tijuca, tornando-se torcedor do América, clube que havia sido fundado em 1904 por associados dissidentes do Clube Atlético da Tijuca (CAT) que se dedicava à prática de corridas, ciclismo, além de modalidades de ginástica oriundas de países europeus. Pouco depois, o CAT se extinguiu e grande número de seus integrantes aderiu à nova agremiação. Em 1908, depois de ocupar algumas sedes provisórias, o América se instalou na Rua Campos Sales, obtendo crescente prestígio no cenário esportivo do Rio. Conquistou o campeonato da Liga Metropolitana de Futebol em 1913, 1916, 1922 (o famoso título de Campeão do Centenário da Independência do Brasil) e voltaria a ser campeão em 1928. Neste ano, João Antero, estudante do Colégio Pedro II, tornara-se morador de Copacabana, admirador do mar, e dos esportes de praia, principalmente do futebol.

Na década de 20, a antiga Praia de Socós já tinha a denominação atual, alusão à capelinha que lá existia, onde estava entronizada a imagem de Nossa Senhora de Copacabana, trazida da Bolívia por um navegante português. O bairro alcançou contínuo progresso a partir do século 19, quando a abertura de um túnel possibilitou maior acesso ao local, por meio de uma linha de bonde.

Em 1928 (ano inesquecível na vida de João Antero) o Brasil estava sob a presidência de Washington Luís e vivia a derradeira fase da República Velha, período que se extinguiu com o advento da Era Vargas em 1930. Um tempo marcado por profundas mudanças administrativas, econômicas e sociais. O país passou a viver movimentos em prol da melhoria das condições sociais, notadamente a obtenção de direitos trabalhistas. Nossa legislação laboral era, até então, dispersa, precária, incipiente, frágil, reprimida por uma retrógrada mentalidade feudal que permanecia viva e atuante num meio político dominado por barões do café, senhores de engenho, coronéis do sertão, uma "elite" ainda presa ao ranço escravocrata. Georges Clemenceau, que havia sido primeiro-ministro da França, viajando ao Brasil em 1910 espantou-se com as duras condições do nosso operariado. O estadista estranhou que as leis francesas de proteção aos trabalhadores fossem inexistentes em nosso país. Em muitas nações europeias a situação social havia evoluído, não mais se admitindo as práticas que haviam sido substituídas por força da ação dos sindicatos.

Clemenceau, apelidado Le Tigre, pela sua determinação em vencer a Alemanha na 1ª Guerra Mundial, era também jornalista tendo-se destacado como negociador da Paz de Versalhes. Dono de aguda consciência sobre as mudanças que então se aceleravam no mundo civilizado. No Brasil, não existia previdência social, nem direito à aposentadoria; os acidentes de trabalho não eram indenizados; a mão-de-obra feminina terrivelmente discriminada; e as crianças, que somavam 50% do proletariado, muitas com 5 ou 6 anos de idade, costumavam ser espancadas pelos capatazes. Em 1907 as costureiras de São Paulo distribuíram manifesto repudiando a excessiva carga horária:

É necessário que recusemos trabalhar também de noite, porque isso é vergonhoso e desumano. Somos obrigadas a trabalhar 16 horas por dia. Como se pode estudar ou simplesmente ler um livro, quando se vai para o trabalho às 7 da manhã e se volta para casa às 11 da noite?

Luís Carpenter, um jurista sensível às causas sociais, companheiro de Evaristo de Morais, Maurício de Lacerda, Pontes de Miranda e outros luminares nas lutas pela redenção dos trabalhadores brasileiros, deixou num dos livros de autógrafos, dedicatórias e pensamentos (que fazem parte do acervo particular de João Antero), um trecho da oração como paraninfo na colação de grau dos bacharéis da Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro, em 18 de dezembro de 1934. O trecho da oração revela a indignação de Luís Carpenter diante das injustiças sociais:

“Exploração do homem pelo homem, oh! monstro terrível, quem te dará o golpe mortal, a ti, que nasceste na Antiguidade, atravessaste toda a Idade Média e chegaste até nós? Na Antiguidade teu nome era escravidão, tua mãe a guerra, tuas vítimas os vencidos! Na Idade Média teu nome era vassalagem e servidão; tua mãe o feudalismo; tuas vítimas os servos e os vassalos! Hoje teu nome é salário, tua mãe o capitalismo, suas vítimas os proletários!”

Vida esportiva e direitos sociais formaram o caldo de cultura que influiu na personalidade de João Antero e plasmaram uma biografia das mais admiráveis.

Em 25 de março de 2005, João Antero de Carvalho faleceu, aos 92 anos, no Rio de Janeiro.

Segue texto em "Um Campeonato na Areia"

 

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João Antero de Carvalho - Vida e Obra

 

Eliane Wasinger Lustosa Brasil - 2004  -  Reformulado -julho/2011