No livro “Torcedores de Ontem e de Hoje”, lançado em 1968, João Antero narra lembranças das competições esportivas em Copacabana e um extraordinário triunfo obtido em 1928:

“A juventude, no barulho infernal de uma torcida exigente, disputava partidas de futebol. Ralava-me de inveja por vê-los defendendo e atacando ardentemente, enquanto eu não passava de mero espectador, eu que seria capaz também de defender e atacar com igual disposição, de ser talvez útil àquela disputa, em que valia mais o coração e a garra do que os recursos técnicos”.

Como não permitiam que um adolescente participasse dos jogos oficiais, ele resolveu fundar, com a ajuda do pai, um clube que pudesse competir no futebol de praia. A garagem do casarão onde morava, no Posto 5, transformou-se na sede do novo clube, de cores verde e branca, tendo como símbolo um fortim (inspirado no Forte de Copacabana). Assim nasceu o Posto 5 F.C. O passo seguinte foi organizar o clube, arregimentar jogadores que formassem dois times, conforme era exigido pelos organizadores dos campeonatos. Eis algumas narrativas de João Antero sobre as peripécias da recém-fundada agremiação:

“Disseram-me que em Ipanema havia ótimos jogadores. Para lá me encaminhei. Fiz minhas observações e, ao fim de duas semanas, o Posto 5 disputava o campeonato oficial da areia!  O primeiro jogo tornou-se um festivo triunfo. Para celebrar o feito, retornamos à garagem com a pompa de guerreiros vitoriosos. E comemoramos estrepitosamente pela tarde afora e pela noite adentro. Parecia até um sonho o presidir um clube de Copacabana e integrar seu quadro principal!  Daí para diante, não conhecemos derrota. O Posto 5 passou a ser temido e a contar com torcedores até então inexistentes. Disputamos todo o campeonato com um ou dois empates e nos sagramos campeões.

O segundo quadro é que apenas se tornou vice-campeão, dada uma mágica dos dirigentes da Liga, que, a pretexto de certa irregularidade por ele cometida, nos roubaram dois pontinhos, mas, na praia, a vitória fora nossa e, por isso, resolvemos comemorar o campeonato dos dois esquadrões com uma longa e ruidosa festança na garagem.  O meu celeiro fora mesmo Ipanema. O time do Oceano forneceu-me meia dúzia de bons elementos: Antônio, Elpídio, Nélson, Otavinho, Heleno, Sabino e outros mais deram força àquele esquadrão da areia, que disputara o primeiro jogo sem um treino sequer. De outras fontes colhi elementos de igual valor: Martinho, o ponta-esquerda, como poucos. Velocíssimo, a todos vencia, numa disparada louca, para dar centros certeiros ou marcar pontos lá da extrema. Álvaro, que depois se tornou célebre como extrema-direita do Botafogo, jogava como zagueiro. Dotado de possante chute, entregava a bola quase dentro do arco adversário. Otavinho, um crioulo franzino e muito ágil, fazia assim os seus gols. Ele semelhava um varapau, mas as pernas não lhe dificultavam o malabarismo magistral. Jogava mesmo com arte e malícia e seria certamente ótimo atleta num dos grandes times da cidade – esse era, aliás, seu grande desejo, não realizado por causa da morte prematura.

Fiz uma grande equipe. O nosso maior adversário era o Posto 4, onde pontificavam Bolinha e Pirica, que depois jogou pelo Botafogo e pelo América. Vencemos uma vez e empatamos outra; foi, por mérito, o vice-campeão, pois, em matéria de conjunto, nem o Posto 5 o suplantava. Nossos jogadores, porém, não demandavam conjunto. Precisavam, isto sim, de alimentação. A grande maioria era composta de gente pobre e emaranhada em dificuldades; jogava pensando no almoço que, após as vitórias lhes era oferecido na velha garagem. Desse modo, todos os domingos almoçavam por minha conta, melhor, por conta de meus pais.

Até hoje me lembro dos fabulosos chutes de Elpídio Medeiros. Nélson Teodoro da Silva entrava sem medir consequências, e quase sempre com êxito. Lembro de Heleno Alves, homem da praia e pescador profissional. Também Martinho, exemplar funcionário da Livraria Freitas Bastos.  Celestino, o goleiro, corajoso, ágil, distinguia-se como o mais velho de todos. Boas vitórias lhe devemos nós. Na nossa zaga jogaram Maneco, Roque e Dudu.

Isidoro – o Suru – e Salomão, seu mano, eram os representantes de Israel. Integravam o segundo time e faziam os seus negócios antes, depois e, não raro, durante os jogos. Nunca desmereceram o permanente conceito de bons comerciantes. Vinham sempre acompanhados do Jacaré, um crioulo musculoso. Toda vez que o pau comia, Jacaré era o primeiro a entrar na briga.

O Posto 5 F. C. era notícia frequente na imprensa, principalmente no “Diário Carioca”, graças a Marcial Dias Pequeno, entusiasta do futebol de areia, redator daquele influente matutino. (Marcial, então um jovem de 20 anos, veio a se tornar ministro do Trabalho, entre 29-6-50 e 31-1-51, no governo do presidente Eurico Dutra, e ministro, interino, da Indústria e do Comércio, entre 11-11-63 e 5-4-64, no governo do presidente João Goulart).

Mas foi efêmera nossa alegria: no ano seguinte não disputamos o campeonato. A representação do Oceano começou a fracassar e sua diretoria descobriu que os melhores jogadores estavam no Posto 5 e, acenando com vantagens, aliciou nossos craques. Chegara ao fim, a existência do meu clube”.

Justiça aos pioneiros e gratidão a João Havelange

O Posto 5 F. C. acabou, mas o futebol de praia prosseguiu para tornar-se um sucesso mundial, modalidade esportiva (beach soccer) oficializada pela FIFA. Em 2007, o nosso craque Buru foi consagrado como o melhor do mundo e o Brasil conquistou o tricampeonato, com a vitória em Marselha, França, em julho de 2008. Tudo consequência do pioneirismo daqueles que nos anos 20, do século 20, fundavam clubes, organizavam campeonatos e atraíam multidões às praias do Rio, desde o Arpoador ao Leblon, dentre eles, João Antero, um adolescente determinado, fundador, presidente e jogador de um clube campeão. O jovem craque era apelidado de “Juba”, devido à vasta cabeleira, ou “Balança Roseira”, pelo vigor e ímpeto na disputa da bola. No livro de memórias (lançado em 2003), Antero fez o seguinte registro sobre o desenvolvimento do futebol de praia:

Conforme depoimento de Arthur Rocha, filho do sindicalista e meu amigo Raymundo Nonato, em 1948 (20 anos após a invicta conquista do meu Posto 5 F. C.), as competições se multiplicavam com o crescimento do número de clubes, mantendo a formação de 11 jogadores em posições definidas, do goleiro ao ponta-esquerda, com os jogos dirigidos por árbitros designados pelas ligas organizadoras. Arthur, que era médio-esquerdo, jogou no Dínamo (de Tião Macalé), no Lá Vai Bola, Alvorada, Ouro Preto, Huracán e outras agremiações daqueles tempos de Neném Prancha, que se tornou personagem famoso na crônica esportiva, consagrado como o "filósofo do futebol".

Além do justo reconhecimento aos pioneiros, vale destacar que o atual prestígio internacional do futebol de praia deve-se a João Havelange. Em carta a Mauricio Antero de Carvalho (27 de agosto de 2008), o Presidente de Honra da FIFA, referindo-se ao Campeonato Mundial de Beach Soccer, ressaltou que a competição foi por ele criada quando presidia a entidade, disse da sua alegria pela vitória do Brasil em Marselha e lembrou a amizade que o uniu a João Antero de Carvalho.

Segue texto em "Louvado seja ele em nome do Brasil"

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João Antero de Carvalho - Vida e Obra

 

Eliane Wasinger Lustosa Brasil - 2004  -  Reformulado -julho/2011