A enorme experiência adquirida em várias décadas como torcedor e participante de administrações do América, levou Antero à atividade de cronista esportivo, através da coluna dominical por ele criada em “O Dia”, na época comprovadamente o jornal de maior circulação no país. Iniciada em 2 de junho de 1968, a seção intitulada “Futebol Pitoresco” prolongou-se, ininterruptamente, até 27 de setembro de 1987. A partir de 1972, os seus textos passaram a contar com caricaturas de Murilo Brasil, jornalista, também colunista de “O Dia”, e torcedor do América.

Foram mais de 1.200 crônicas com registros bem-humorados em torno do futebol carioca, brasileiro e internacional. Ao América, João Antero sempre dedicou especial atenção, com saborosos noticiários sobre a vida do clube da Rua Campos Sales.

1987 foi um ano de enormes confusões no futebol brasileiro, marcado por graves divergências entre altos dirigentes esportivos, troca de acusações, xingamentos dos mais pesados, tudo levando perplexidade e desalento aos torcedores. As confusões foram tantas que, ao final do campeonato brasileiro não se conseguiu saber quem havia conquistado o título. Até hoje, o Sport, de Recife, e o Flamengo, do Rio, proclamam-se, cada um, o legítimo campeão brasileiro daquele ano.

Ao longo do tumultuado campeonato, João Antero escreveu magistrais crônicas, com sérias advertências sobre a caótica situação que os "cartolas" vinham impondo ao nosso futebol. Alguns desses comentários merecem ser reproduzidos:

“O clube de futebol, em vez de apenas significar arrimo ou muleta espiritual, pode e deve ser caminho do cidadão, de convivência humana e social. As crianças e os jovens cabem perfeitamente dentro do sentido recreativo e cultural de um clube. Homens há, do mais alto gabarito intelectual, que vivem a vida de seus grêmios e aí são felizes e se afirmam. Eles mesmos criaram o ambiente e recebem um sentido de continuidade de vida, que não encontram na profissão, na plana social como cidadãos.

A associação desportiva pode ser o princípio da educação verdadeira. Assim como a família realiza a primeira etapa da adaptação do homem ao meio social, o clube esportivo e, principalmente, o que tem como maior atividade o futebol, pode ser continuação do lar, pois consegue o milagre de conciliar e disciplinar, uma vez que tem imenso material para preparar homens livres e saudáveis para a coexistência em sociedade. Com âmbito de grandeza nacional, pode e deve existir como instituição humana, com valores humanos, culturais e sociais. Dentro de sua dinâmica, atinge mais largamente e mais poderosamente o indivíduo”. (3/5/87)

“Com a Igreja, outras instituições forcejam por conter o homem e orientá-lo, dando-lhe uma diretriz. E logo assumem papel preponderante os subprodutos religiosos: ideologias, partidos etc. De um ângulo vicinal oferecem-se ainda outros caminhos, outros pólos de atração que exercem pressão por via temperamental e de circunstâncias, arrastando os indivíduos, desviando-lhes os impulsos, divorciando-os dessa preamar de rebeldia coletiva, por força de sua vinculação a esses laços mais fortes e de outra tessitura emocional ou cultural. Sem embargo, com força para absorver seus pensamentos, ressentimentos e seus impulsos anárquicos, fornecendo-lhes o campo normal para o desgaste de energias acumuladas pelos contratempos e contrastes da vida.

O homem, libertando-se do antigo vínculo religioso formal, se não tiver caráter ou uma concepção idealística qualquer que possa ocupar o tremendo vazio, encontra soluções as mais diversas, decorrentes de circunstâncias de vida, desde o homossexualismo às mais atrevidas formas de violência, à margem das atividades normais da sociedade, numa pluralidade imensa. É a falta de motivação coletiva que arma os bandidos.

As artes, a ciência, o estudo, os esportes, mesmo a religião colocada em seus verdadeiros termos, eis os campos capazes de absorverem a carga emocional que a vida suscita no atribulado homem deste final de século. O cultivo da arte, dos esportes, da ciência, de todas as formas de investigação, formará uma base lógica de raciocínio, desse raciocínio que está faltando ao homem para resolver seus problemas, raciocínio ainda falho que o faz optar por fórmulas feitas, mezinhas, panaceias sociais, de contradições e ódios. Para a coletividade, entre outros, há um importante polo de atração: os esportes. No Brasil, existem dois: o carnaval e o futebol”. (10/5/87)

“Revendo velhos recortes, li a entrevista de uma religiosa com declarações de grande oportunidade. Trata-se de Madre Maria Rosa, então Madre Provincial da Ordem das Dominicanas. Em palestra feita às alunas e professoras do Colégio Santa Rosa de Lima, em Porto Alegre, disse ‘que o Brasil teria três vezes mais delinquentes sem o futebol’.

Não pretendo resolver, com minhas crônicas, os problemas do mundo. Mas futebol é vida. Insere-se, tremendamente, no quadro social dos nossos dias. E não se pode falar de futebol apenas como vício ou indústria de fazer dinheiro. Está dentro de um contexto social”. (2/8/87)

“Depois do lar, por todo esse Brasil, o futebol é a afeição mais forte, que mais atrai e tem força para proteger dos desajustes. A Igreja teve sua fase áurea. Pegava o garoto desde pequeno e daí lhe dava um sentido de vida. Passou. A sua força esmoreceu no mundo de hoje, onde as coisas não se comportam mais como antigamente. Tem a sua esfera de influência. Mas a vida, cá fora, tem outras implicações tais como: encontrar derivativo, caminho certo, veículo, digamos, para os primeiros anos de vida. Porque a criança distingue-se, principalmente, pelo excesso de energia. E se não tiver um conduto lógico e normal, higiênico, prolifera nas coisas mais estranhas. Temos garotos sem a menor capacidade de discernir e só de sentir, que se acham o centro do mundo. Com todos os direitos, já trabalhados por uma escola de cinismo, da qual se contaminam, de espertos, querendo ser diferentes, apenas já contaminados pelas doenças sociais do tempo, desprezando o esporte, sabidões, absolutamente imbecis. E daí os crimes cometidos por crianças e jovens.

O futebol não resolve os problemas da juventude, que o são, de toda a humanidade. Mas é uma das forças, repetimos, que podem e devem contribuir para dar outra perspectiva ao homem de amanhã, numa escola de civismo, de camaradagem e de cooperação.

Além dessas considerações, vale acrescentar que o futebol se tornou, direta ou indiretamente, uma atividade econômica que proporciona emprego, no Brasil, a milhões de pessoas, assegurando a manutenção de outros milhões de dependentes. Sendo assim, os problemas que se abatem, atualmente, sobre o esporte geram certa inquietação social, pois se o futebol entrar numa curva de decadência irremediável, muitos hão de perder seu ganha-pão. Que os cartolas meditem, tomem tenência e recoloquem o futebol em ascensão”. (23/8/87)

Comentários e Caricaturas

Textos: João Antero de Carvalho

Ilustrações e comentários: Murilo Brasil

 

INTOLERÂNCIA RELIGIOSA

"Esta semana, quando da chegada da delegação brasileira que conquistou o bicampeonato mundial de juniores em Moscou, houve fato dos mais inusitados. Os atletas vitoriosos, quase todos membros da Igreja Batista, recusaram-se a confraternizar com alguns integrantes da Mangueira que, patrioticamente, haviam ido até o aeroporto para recepcioná-los. A batucada esmoreceu, murchou o alegre rebolado das passistas, o samba perdeu o ritmo e até a inocente bateria mirim foi mantida do lado de fora para não ferir a crença dos bicampeões. Não queremos provocar nenhuma polêmica religiosa, mas parece que andaram esquecendo ou ignorando aquela belíssima frase que Jesus pronunciou na Sua passagem pela Terra: Vinde a mim as criancinhas". (15-9-1985).

No livro "Crônicas do Futebol Pitoresco" (lançado em 2004), Antero relembra o fato e diz: "ele faz lamentar um sentimento que, infelizmente, persiste e faz parte da história da humanidade: a intolerância religiosa. Além da decepção das passistas da agremiação de Cartola, Dona Zica, Dona Neuma e tanta gente gloriosa do mundo do samba, como ficaram as cabeças verde e rosa dos sempre queridos meninos da Mangueira? Impedidos de festejar com seus jovens ídolos, campeões mundiais, só lhes restou a amarga experiência de serem vítimas de um ato absurdo cometido em nome de Deus".

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PIADA DE BRASILEIRO

"Vários cronistas da praça já apreciaram, com as devidas gozações, o roubo da Taça Jules Rimet, enfocando, também, o riso provocado no mundo inteiro pelas pitorescas circunstâncias que cercaram o sumiço do troféu. Como se sabe, a cópia, sem maior valor, estava cuidadosamente trancada a sete chaves, mas o preciosíssimo original achava-se, de modo o mais imprudente, exposto ao alcance dos larápios. É possível que nossos 'sherlocks' acabem por descobrir o paradeiro da Taça; contudo, é impossível silenciar os comentários gaiatos que se fazem sobre o inusitado episódio. O que andam contando por aí é a mais incômoda das verdades: em terras de Portugal, os lusitanos Manoel, Maria e Joaquim (notórios personagens de anedotas de português) estão indo à forra, aos risos e sonoras gargalhadas, fazendo piadas sobre a nossa toupeirice, deitando e rolando no imitar do sotaque dos brasileiros". (8-1-1984)

A Taça, que o Brasil havia conquistado em definitivo com a vitória na Copa do Mundo de 1970, jamais foi recuperada, e os portugueses continuam gargalhando...

 

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APOSENTADORIA, A "MORTE EM PEDACINHOS"

A crônica de 22-6-1986 reproduziu trechos de carta-resposta de Eliézer Rosa a Antero, na qual o magistrado fazia estas apreciações:

"Só tenho palavras de louvor pela correção do seu pensamento sobre o futebol. José Lins do Rego disse que 'futebol é, como o carnaval, um agente de confraternidade; liga os homens no amor e no ódio. Faz com que eles gritem as palavras e admirem e exaltem os mesmos heróis'. Sérgio Porto disse que, no futebol, a cabeça é o terceiro pé. Faltou-lhe dizer que o coração é o quarto pé, porque, sem coração, não há futebol que preste".

Estes foram alguns pensamentos em torno de uma crônica dominical de Antero, quando este apontou mazelas anti-esportivas que vinham prejudicando o futebol. Ao final da carta, Eliézer pedia desculpas pelo fato de não mais escrever com frequência:

"Não tenho mais cabeça para escrever aquelas cartas de outrora. Falta-me a inspiração, que é a segunda mão que escreve. Minha estima por você é a mesma de sempre. Você tem sido, no decorrer do tempo, o amigo mais fiel e leal. Desculpe os erros de datilografia. Meus olhos voltaram a ser ruins, mas ainda servem para ler, meu único consolo nessa morte, em pedacinhos, que é a aposentadoria. - Abraça-o fraternalmente, Eliézer".

 

A tristeza do missivista, então aposentado do poder judiciário, decorria das limitações que lhe eram impostas pela idade. Imagine-se os padecimentos dos aposentados, e pensionistas, da previdência pública (já com precariedades naquela época) que, nas últimas décadas, tiveram, e continuam tendo, seus benefícios reduzidos, vítimas das bruxarias engendradas pelos interessados em esvaziar e inviabilizar nossa seguridade social.

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SER OU NÃO SER FLAMENGUISTA

Na crônica de 6-6-1982, Antero contestou o jornalista e escritor Edigar de Alencar que, veementemente, condenava o uso do adjetivo "flamenguista", afirmando que o correto seria "flamengo". Eis um trecho da contestação:

"Não pretendo embarafustar-me pelos assustadores labirintos gramaticais; todavia, tenho para mim ser correta a elaboração semântica, tanto mais que o mestre Aurélio Buarque de Holanda faz o registro (de 'flamenguista') no seu irretocável Dicionário, dando até menos ênfase ao verbete 'flamengo'. (...) Na verdade, a sufixação em 'ista' (do grego 'istes') designa aptidão, formação profissional, participação, integração, partidarismo, gentilidade. Pode, entretanto, ser aplicada com vistas a reduzir a importância de alguma coisa e, mais contundentemente, com nítido sentido pejorativo".

 

Em meio a outras considerações sobre a aplicação apropriada do sufixo "ista", Antero reconheceu que, num passado distante, "flamenguista" era empregado por irreverentes torcedores rivais para hostilizar os rubro-negros, mas fez esta ressalva:

"O tempo se encarregou de esvaziar o conteúdo negativo e deu-lhe valor quase exclusivamente popular, de saborosa simpatia. Flamenguista era o fanático, o cego, o doente; depois, passou a ser um estado de espírito, o integrante duma corrente importante dentro do movimento desportivo. Hoje, flamenguista é brasileirismo de absoluta propriedade".

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E TUDO CONTINUA PIORANDO...

Há três décadas, a degeneração de valores levou Antero a advertir:

"A carência de pessoas, efetivamente expressivas, no cenário nacional, começa a assumir proporções assustadoras, pois hoje é muito raro um intelectual, jurista, político, ou cientista de postura consagrada emprestar, eventualmente, à máquina administrativa do Estado, um pouco do talento de que dispõe. Há, felizmente, exceções, mas se trata de um fenômeno social, em que as inteligências nacionais mais lúcidas já não acreditam, como antes, na grande maioria dos homens públicos de hoje; ao contrário, retraem-se, abandonando ou evitando a vida pública, pelas decepções suscitadas no decorrer do próprio processo político pátrio. O povo, que é a voz de Deus - e desde os tempos de Roma - , já cansado de ser enganado e tripudiado em seus direitos, começa a anunciar profunda descrença sobre os rumos do País (...) O Brasil, outrora dirigido por cidadãos de grande lastro cultural, de seriedade política inquestionável e de formação moral das mais idôneas, se distancia, a passos largos, do futuro promissor que seus antigos estadistas lhe haviam garantido pela sabedoria de seus atos".

Diante do que foi publicado em 3-1-1987 só nos resta lamentar o espantoso agravamento da degeneração.

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DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS

Quando dos preparativos da Seleção para a Copa do Mundo de 1986, no México, houve o rumoroso caso de dois craques ameaçados de serem cortados do elenco convocado por Telê Santana, pelo não cumprimento dos horários de apresentação na concentração. Na crônica de 2-3-1986, Antero inseriu a seguinte nota:

"O episódio envolvendo Leandro e Renato Gaúcho mereceu um comentário, vindo de São Paulo, da médica Ingeborg Orlandi, rubro-negra e mangueirense. Diante dos inúmeros e candentes apelos em favor dos dois jogadores da Seleção, a moça estranhou que não haja a mesma tendência ao perdão e à indulgência quando se trata de um candidato ao vestibular que tem o portão fechado, na cara, não importando que o atraso seja mínimo. Segundo Ingeborg,

'não há súplicas, explicações, lágrimas ou desespero que comovam os responsáveis pela manutenção das regras. O que há é o silêncio e a indiferença, inclusive da opinião pública, diante do drama de quem perdeu, muitas vezes involuntariamente, o horário das provas. Se a sociedade deve obedecer preceitos estabelecidos, por que o sistema de dois pesos e duas medidas? Afinal, como fica o conceito de justiça?"

Porém, nada mudou e permanece o desespero de candidatos ao vestibular que, retardatários, mesmo por frações de segundos, esbarram em portões inexoravelmente fechados.

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COISAS DO BOTAFOGO

Em 13-12-1981, um destemido botafoguense foi alvo de comentário no "Futebol Pitoresco", principalmente por ser personagem de alto relevo no sempre agitado mundo da Estrela Solitária; também escritor e apreciado cronista do "Jornal do Brasil", o dileto amigo assim foi mencionado:

"O jornalista Sandro Moreyra, no 'Campo Neutro' do dia 3, anunciou que o novo Conselho Diretor do Botafogo vai rever os sessenta títulos de benemerência, outorgados durante a gestão de Charles Borer. Lembra que o clube, em todos os seus sessenta e oito anos de existência, somente agraciou sessenta sócios. Contrastando com essa austeridade, agora 'foi uma orgia, títulos dados a gente que ninguém sabia quem era e com explicações que levaram até o ridículo os nomeados".

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HAVELANGE - SENSAÇÃO NO PAN 2007

Na crônica de 28-5-1978 está a justa homenagem de Antero ao então presidente da Fifa (hoje distinguido com o título de "Presidente de Honra" daquela entidade), a propósito de um livro sobre Havelange. Eis um trecho da crônica:

"Figuras proeminentes, civis e militares; antigos atletas, dirigentes de clubes e de entidades supervisoras dos desportos; amigos e admiradores do referido presidente receberam o livro do jornalista Vivaldo de Azevedo, intitulado 'João Havelange - Determinação e Coragem', enfocando com louvável exatidão o perfil e a carreira de Jean Marie Faustin Godefroid Havelange, 'homem simples, indulgente, despretensioso, igual, mas dinâmico, realizador, construtivo', que, na opinião de João Lyra Filho e de quantos o conhecem mais de perto, 'concentra em suas maneiras sóbrias os predicados e as virtudes que todos desejariam ver no padrão psicossocial do nosso povo".

No livro, hoje inserido no precioso acervo histórico preservado pela família de João Antero de Carvalho, está a dedicatória de Havelange:

"Ao amigo Antero, a quem aprendi a estimar e respeitar por seu conhecimento jurídico e dedicação ao esporte".

Quase trinta anos depois, Havelange tornou-se o personagem principal na consagração das vitoriosas atletas no torneio de futebol feminino do Pan 2007. Com garbo e desenvoltura, entregou ouro às brasileiras, prata às norte-americanas e bronze às canadenses, cercado por um Maracanã lotado e delirante, onde saudavelmente predominavam mulheres e crianças.

Vistoso e elegante, Havelange encantou as atletas premiadas, provocando alvoroço e, especialmente entre as canadenses, alegres agitos...

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CONVERSAS NUM ORELHÃO CELESTIAL

"Manduca é o inesquecível ciclista que, sempre de camisa vermelha e boné vermelho, com o emblema do América, percorria as ruas da cidade, transportando a sua alegria e o seu entusiasmo rubro. Fazia incríveis desenhos no asfalto, até que, num triste dia, foi abalroado. Era o fim de sua encarnação terrena".

Este é o início da crônica (24-1-1982) na qual Antero revelava mais uma das cartas que havia recebido de Eliezer Rosa. Nesta, como em outras, o missivista valia-se do Manduca para elaborar úteis parábolas e difundir ensinamentos em torno do comportamento humano. Um tributo ao incrível ciclista que ao longo de 62 anos, pedalando pelas ruas do Rio, percorreu quase 600 mil quilômetros, cerca de 14 voltas ao planeta Terra, através da linha equatorial.

Na carta, Eliezer contava sobre a inauguração de um orelhão na esquina de duas movimentadas avenidas no centro do Céu. Segundo revelou, o primeiro a falar ao telefone público, utilizando uma hóstia não consagrada como ficha, foi o Manduca, para contar ao Antero toda a beleza da amizade, conforme os ensinamentos do Cristo:

"Sem amigos não se vive. Um amigo é um presente de Deus. Fazei amigos! Os amigos sempre servem, mesmo os passageiramente maus".

Ao finalizar a crônica, Antero afirmou:

"Já não duvido que o Juiz Eliezer Rosa, a essa altura, possa editar um livro sobre a movimentação do santo Manduca no Além. Tenho reproduzido, aqui, seus deliciosos textos, nos quais objetiva, em última análise, a lição da bondade e da munificência".

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ARISTOCRACIA TRICOLOR TAMBÉM MORRE NA PRAIA

Em torno das tradicionais gozações de que "o América nada, nada e ...morre na praia", Antero nos deixou este registro, que se encontra no livro "Crônicas do Futebol Pitoresco":

"A seção 'Futebol Pitoresco', fazendo jus ao nome, sempre tratou do tema 'morte na praia' com bastante bom humor, tanto nos textos, como nas charges. Flamenguistas, tricolores, botafoguenses e vascaínos foram devidamente gozados. Nem a nossa Seleção, na Copa do Mundo de 1982, escapou dos nossos comentários e caricaturas hilariantes, por causa daquela 'morte' inesperada, no pequeno estádio Sarriá, diante da Itália, de Paolo Rossi".

É verdade! O tema foi, variadas vezes, destaque nas crônicas, como se lê no seguinte trecho publicado em 14-12-1975:

"O Fluminense, que não conseguiu descer de helicóptero no Maracanã, perdeu para o América e desencarnou no asfalto, deixando estupefata sua torcida, e em sérias dificuldades financeiras o aristocrático grêmio das Laranjeiras. Consolemô-nos: morrer no remanso, na crista da onda, na praia, ou no asfalto, dá no mesmo".

A charge, retratando aquele pitoresco óbito, fez questão de salientar a elegância, a "finesse", a fidalguia e o requinte, virtudes características das gentes do refinado reino de Álvaro Chaves.

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UM PAPA VASCAÍNO?

No livro "Louvado seja ele em nome do Brasil - Memórias", no capítulo "Os Divertidos Tempos do Futebol Pitoresco", Antero revela o seguinte fato:

"Em setembro de 1974 recebi carta, assinada por um cidadão chamado Bernardo Bertolazzo Simões, na qual ele afirmava ser diplomata, ter servido na embaixada brasileira no Vaticano e que o Papa Paulo VI (Giovanni Battista Montini) era simpatizante do Vasco da Gama, devido à Cruz de Malta do clube de São Januário. A carta, em tom de ácida irreverência, refletia a irritação de alguém, seguidor da Igreja Católica, disposto a minimizar a importância que eu, em crônicas anteriores, dera ao fato de ser Divaldo Franco, notável orador espírita, torcedor do América. O tal diplomata, parecendo estar ferido em seus brios religiosos, desafiava-me a divulgar, em 'O Dia', com o mesmo destaque, a santa preferência de Paulo VI pelo Vasco.

Para esclarecer a questão e evitar um possível conflito religioso, busquei, inutilmente, descobrir o telefone do diplomata, mas ele não era assinante da Companhia Telefônica. Baldados os esforços, dirigi-me ao endereço que ele havia apontado na carta, situado na Rua Paul Redfern, em Ipanema. Estranhamente, o número indicado pelo missivista simplesmente não existia. Investiguei ao longo daquela rua, perguntando se alguém conhecia o diplomata, mas ninguém sabia quem era o sujeito.

Considerei a carta apócrifa e desisti do assunto. Contudo, não pude evitar o interesse de vários cruzmaltinos em saber se realmente Paulo VI era vascaíno.

Só recentemente, cerca de 30 anos após aquele episódio, soube a hilariante verdade. Murilo Brasil confessou-me que a carta havia sido engendrada pelo advogado Francisco Domingues Lopes, o 'Chico', torcedor do América, com a marota intenção de causar um 'ouriço' na imprensa e gerar polêmica. Hoje, tal estratagema é chamado de 'factóide'.

É certo que o 'Chico', bem antes da confissão do Murilo já havia revelado sua armação ao meu filho Marcelo Antero, provocando-lhe sonoras risadas...

Aquela gozação trouxe-me à lembrança as peças que Isaac Amar costumava pregar nos amigos, conforme relatei no capítulo a que ele dediquei em 'Torcedores de Ontem e de Hoje'. Isaac, personagem indelevelmente ligado à história do Fluminense, jornalista, obstetra, professor emérito na Escola de Medicina e Cirurgia, foi em sua agitadíssima vida esportiva o criador, em 1937, da famosa lenda do 'Sapo Arubinha'. Isaac propalou que um ponta-esquerda do Andaraí Atlético Clube, que disputava o Campeonato Carioca, havia, por vingança, enterrado um sapo em São Januário, tudo para 'secar' o Vasco. O inocente Arubinha não procurou desmentir o fato e 'deixou a bola correr'. Todavia, por um sortilégio qualquer, o feitiço atormentou os vascaínos durante oito longos anos, pois o clube de São Januário só em 1945 voltou a se sagrar campeão. Durante o jejum de títulos, o coitado do Arubinha foi hostilizado pela colônia lusa, embora festejado pelas outras torcidas".

Na seqüência, Antero revive outras "armações" do célebre torcedor do Fluminense e assim finaliza o capítulo:

"Os dois marotos, o 'Chico', inventor do diplomata no Vaticano, e Isaac Amar foram personagens de episódios de humor que costumam ocorrer em nosso mundo esportivo".

Fui cúmplice naquela pecaminosa "armação", embora corresse (ao lado do "Chico") o risco de uma severa excomunhão. Entretanto, não soubemos avaliar a astúcia do Antero; colecionador de documentos históricos, sempre prevenido contra falsificações, ele, obstinado em investigar a veracidade do fato, além de virar a Rua Paul Redfern pelo avesso, consultou diplomatas e religiosos, não caindo, assim, na ardilosa conspiração. A ilustração que eu havia preparado foi prudentemente sepultada no fundo de uma gaveta, ficando inédita por mais de trinta anos, para, agora, ressurgir luminosa e colorida no universo da internet.

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GRANDEZA DO FUTEBOL

Recriação da ilustração da crônica de 3-5-1987 ("O Dia").

No menu "Futebol Pitoresco", deste site, há trechos de crônicas publicadas em 1987, quando Antero criticou asperamente os causadores da tremenda lambança que afetou gravemente o Campeonato Brasileiro daquele ano. Contudo, certos dirigentes persistem na prática de crimes e, aproveitando-se do futebol, cometem evasão de divisas, lavagem de dinheiro, sonegação fiscal e outros atos delituosos. Os fatos se sucedem e são do conhecimento público. Facínoras apoderam-se do futebol e profanam a modalidade esportiva que Antero tão bem soube analisar no posfácio que escreveu para uma série de capítulos sobre a história do futebol (da pré-história a Charles Miller) publicados em 1971 no vespertino "A Notícia", hoje disponível no site www.murilobrasil.com.br .

Eis o trecho inicial daquela análise:

 

"Possui o futebol uma energia própria, exclusivo conduto, espécie de corrente magnética que circula em todos seus afeiçoados, seja qual for o grau de cultura, posição social, financeira, econômica, política ou científica. Corrente magnética própria, de sentimentos e emoções de 'estado', digamos, que a todos influencia de uma só maneira, com uniformidade tal que iguala os homens no mesmo sentimento. Porque, no fundo, o futebol representa ideal, um feixe de desejos e sensações benfazejas, libertadoras, positivas. Força capaz de sobrepor-se às outras, reinando soberana enquanto age. Por isso, dizemos que a ação do futebol deve cobrir um trato mais extenso na vida, uma linha de ação mais longa e mais duradoura, enriquecida com valores morais, cívicos, intelectuais e espirituais".

GENEROSA EMOÇÃO

Em outro trecho do posfácio, Antero fala da alma do torcedor, sua incrível absorção pelos mágicos aspectos do futebol:

 

"Sim, sabemos que, em muitos casos pessoais, absorvem inteiramente a vida de milhares de felizes indivíduos que assim justificam suas vidas, seus esforços, seus desejos, desenvolvendo uma atividade que vai desde o 'pontapé' - o aspecto físico simbólico - até os gestos do mais alto e mais puro altruísmo, do sacrifício pessoal, de solidariedade humana. Gesto de uma beleza moral que ele nunca seria capaz de praticar em porta de botequim, à mesa do jogo, tomando drogas ou simplesmente na luxúria ou no ódio. O futebol cria essa identidade de sentimentos entre os homens e os aproxima. É uma força que deve ser usada para aproximar as criaturas, que andam tão distantes umas das outras e criam abusões terríveis, vindos de outras épocas.

 

É o futebol, na verdade, e no nosso entender, o maior condutor desse ideal porque, em si, tem um tal poder de união, que dentro de seu ambiente cabem todos: fortes, fracos, ricos, pobres, inteligentes, burros, gênios e homens simples. Sua emoção é generosa. Sua emoção liga, une, aconchega, tem ternura. Tem ternura, amor, no grande sentido de dar sem querer nada em troca e podemos ver um milionário abraçar-se e vibrar, até as lágrimas, com um operário, um outro do mesmo clube, não importando, ao caso, a sua categoria social ou financeira".

A CÉLEBRE CARTA QUE SE INTEGROU À VIDA DO FLAMENGO

 

Ainda no posfácio, Antero reviveu o conteúdo da carta de Eliézer Rosa, divulgado pela primeira vez em "O Dia", 29-6-1969, que se tornou célebre, cuja mensagem integrou-se à alma da nação rubro-negra:

"Nesta manhã de chuva e sol, cheia de frio, ao som cantante dos martelos dos operários numa obra próxima, lembrei-me de escrever-lhe, para matar saudades. Ainda não volvi a mim, à minha calma interior, desde aquele tormentoso domingo em que o Flamengo perdeu para o Fluminense. Não que eu seja flamengo, como você sabe e todo mundo sabe, mas, a verdade é que eu gosto do Flamengo e não sinto prazer, quando ele perde. Nisso de futebol, sou ecumênico, se a palavra tão amável cabe em tal assunto. Gosto de todos os clubes, embora tenha minha religião pelo nosso América.

Ouça bem, meu caro Antero: O Flamengo não é somente um clube, uma organização esportiva. O Flamengo é uma religião, uma seita, um credo, com sua bíblia e seus profetas maiores e menores. O Flamengo é um amor, uma devoção, uma eterna comunhão de sentimentos. Por ele muitos deram a vida, alienaram a liberdade, destruíram amizades, arruinaram lares, com homicídios e suicídios. O Flamengo, o flamenguismo, para ser mais exato, é uma cardiopatia. O Flamengo dá febre, dá meningite, dá cirrose hepática, dá neurose, dá exaltação de vida e de morte. O Flamengo é uma alucinação. Deveria ser feita uma Lei Federal que obrigasse o Flamengo a jogar em todo o Brasil, toda semana, e ganhar sempre. Quando o Flamengo vence, há mais amor nos morros, mais doçura nos lares, mais vibração nas ruas, a vida canta, os ânimos se roboram, o homem trabalha mais e melhor, os filhos ganham presentes. Há beijos nas praças e nos jardins, porque a alma está em paz, está feliz. O Flamengo não pode perder. Sua derrota frustra, entristece, humilha e abate. A saúde pública, a higiene nacional exigem que o Flamengo vença, para bem de todos, para felicidade geral, para o bem-estar nacional.

Aqui vai um anteprojeto de Lei:

Lei nº ... Dispõe sobre normas de saúde pública.

Art. 1º O Flamengo jogará semanalmente em todos os Estados da Federação.

Art. 2º O Flamengo vencerá todas as partidas.

Art. 3º Revogam-se as disposições em contrário.

Saiba que esta é uma Lei necessária. Ela deverá vir o quanto antes.

Algum dia, ela poderá ser revogada em favor do América. O importante é o precedente legislativo".

A carta faz parte do livro "Uma Nação Chamada Flamengo", de Ivan Alves, lançado em 1989; também está impressa nas camisas que o clube da Gávea consagra como produto de "marketing", desde 2004, e foi incluída, na íntegra, nos livros "Louvado seja ele em nome do Brasil - Memórias" e "Crônicas do Futebol Pitoresco" (obras mencionadas em outros "links" deste "site". Além disso, foi reproduzida, ampliada e está exposta na sede do Flamengo, o mesmo ocorrendo na 79ª Vara do Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região, cujo titular é Marcelo Antero de Carvalho, o único dos 6 filhos do Antero que não seguiu as preferências do pai pelo América e virou flamenguista super-roxo.

O texto da carta de Eliézer Rosa foi integralmente revivido após a vitória do Flamengo sobre o Santos, por 5 x 4, em 27 de julho de 2011.

A SAGA HUMANA DO CLUBE

 

Na sequência do texto publicado em "A Notícia", Antero assim se estende na ardorosa exaltação ao futebol:

 

"É uma força gigantesca que se está adensando cada vez mais ganhando um relevo cada vez maior, uma tessitura, corpo que acabará galgando todos os setores do nosso pensamento. A escultura já lhe faz preito, que, na Grécia, o esporte foi motivo das mais belas expressões artísticas de seus escultores, de um Fídias que junto com Miguel Ângelo e Rodin faz a trindade que atravessa séculos, como os três cumes mais altos da escultura".

"(...) O clube, em si, é uma entidade física, com paredes, salas, campos de esporte, com sua área delimitada, como um país. Mas o que faz a grandeza das nações, o que as faz projetarem-se na História, não são seus limites geográficos, a cor do céu, a beleza de suas montanhas, rios ou outros cenários exclusivos da natureza".

"(...) Mas o torcedor, coitado, o torcedor, eis a saga humana do clube. Vive, estuante, eufórico, triste, macambúzio, prostrado, mas sempre com a luzinha do seu amor, do seu devotamento, a brilhar, acesa no santuário de sua devoção ao clube, à fraternidade que o une a todos os outros torcedores. Há torcedor que esquece a própria dor para se condoer de todos os outros torcedores. E falam baixo, masoquistas, aumentando a própria dor. E, na verdade, é como diz um psicólogo eminente de quem , no momento, não me lembro o nome: A piedade é uma forma do indivíduo ter pena de si mesmo".

"E todos ficam com pena de si mesmos, irmanados na mesma dor, mas aflitos porque fulano, sicrano, sofrem mais, pelo temperamento, pela feição de serem ultra apaixonados".

O FIM

Mas, voltemos ao Campeonato Brasileiro de 1987: no livro "Crônicas do Futebol Pitoresco", Antero deixou este registro sobre a esbórnia provocada pelos desastrados dirigentes:

"O monstrengo apresentou-se com uma absurda novidade, uns 'módulos coloridos' que acabaram vitimando o América. Recusando-se a participar da turma 'amarela' (uma 2ª divisão disfarçada), o grêmio de Campos Sales, apesar da sua tradição e importância no futebol nacional, do destacado desempenho do ano anterior, da posição no 'ranking' brasileiro (estava entre os 20 melhores clubes do país), foi penalizado e, como consequência, impedido de integrar a chamada 'elite do futebol brasileiro'.

Além do América, a coluna 'Futebol Pitoresco' também foi atingida. Meus comentários e as charges do Murilo provocaram contrariedades em certos setores, principalmente os televisivos. A última crônica foi publicada em 27 de setembro de 1987, cujo texto e caricatura não poupavam os mentores da bagunça.

No dia seguinte, recebi comunicação de que a coluna não mais sairia. O pretexto, apresentado com extrema gentileza, em nome do então editor-geral do matutino foi a reestruturação das seções do jornal".

Era o fim do "Futebol Pitoresco", coluna que marcou a crônica esportiva do Rio. Atração nas edições dominicais de "O Dia", alcançava leitores de outros jornais, graças a um sistema de mala direta que Antero havia montado, arcando com todas as despesas postais. Às segundas-feiras, um eficiente integrante do departamento de esportes, o dedicado e fraterno Walter Jorge (o flamenguista Waltinho) encarregava-se, prazerosamente, de juntar exemplares, ainda disponíveis, do dia anterior, separar a página que apresentava a coluna para que, o cuidadoso e frenético serviço postal do Antero entrasse em ação. Ao longo do tempo, muitos, nas mais diversas camadas sociais, foram atraídos e tornaram-se, também, leitores de "O Dia".

Revivendo os fatos, devemos refletir sobre as maléficas consequências provocadas pelos descaminhos dos cartolas, quando criaram o monstrengo que deturpou o Campeonato de 1987 (simbolizado na charge acima, publicada em 13-6-86). Mais de vinte anos depois, a perniciosa radioatividade exalada pela horrenda criatura jogou o Flamengo e o São Paulo numa acirrada discussão em torno de quem tem o direito de proclamar-se o primeiro pentacampeão do Brasileirão...

Homenagem a notáveis torcedores

 

A coluna "Futebol Pitoresco" sempre deu especial relevo aos torcedores rubros, entre eles dois muito atuantes na vida do clube, Oswaldo Martins Gonçalves e Eralda Savelli Guimarães.

Oswaldo, que nos deixou prematuramente, foi parceiro constante de Antero na alegre e sempre confiante presença aos jogos do América, nos mais diversos estádios. Integrante de diretorias, em várias administrações, notabilizou-se como destemido defensor do clube na Federação, fazendo por merecer o título de Benemérito, com seu nome perpetuado na bela placa de bronze que está afixada na sede de Campos Sales.

Eralda é fiel torcedora desde 1978, quando levou seus filhos, Aurélio e Afrânio, ao clube para o aperfeiçoamento na natação. Presença marcante à beira da piscina, tornou-se em 1979 diretora do Departamento de Natação e, a partir daí, passou a exercer diversos cargos de relevo no clube. O bem organizado, espaçoso e atraente Departamento Histórico, que ela dirige com extrema competência, oferece um farto manancial para estudiosos e pesquisadores, não somente do futebol do Rio e do Brasil, mas também preciosas fontes históricas de outras modalidades desportivas, entre elas o basquete, cuja introdução no Rio deve-se ao América, em 1912. As crônicas do "Futebol Pitoresco" estão cuidadosamente encadernadas e integradas ao acervo histórico.

Tão notável torcedora tem entre seus ascendentes Cencio Savelli (o papa Honório III, de 1216 a 1227, que aprovou as Ordens dos Franciscanos, Dominicanos e Carmelitas) e do engenheiro Francesco Savelli, um dos reféns italianos executados pelos nazistas nas Grutas Ardeatinas, Roma, em 1944.

Eralda presidiu o Lions Clube do Rio de Janeiro - Mater do Brasil, sendo a primeira mulher a ocupar tão expressivo cargo. Atualmente, integra a diretoria do Lions do Jardim Botânico. Além das funções na sede de Campos Sales, Eralda Savelli tem intensa vida produtiva adornada pelo encanto das suas netas Camila e Thaís, além da alegria que lhe é proporcionada pelo pequeno neto Felipe.

A escolha de Ricardo Boechat

Ao final do "Brasileirão" de 2008, o jornalista, radialista e apresentador de TV, Ricardo Boechat, inconformado com o desempenho do Flamengo na reta final do campeonato (não conseguiu sequer classificação para a Taça Libertadores de América) disse ao microfone da Rádio Band News Fluminense que deixaria de ser rubro-negro e passaria a torcer pelo América. Claro, que foi apenas um arroubo passageiro do líder de audiência, mas um torcedor do América, Mauricio Antero, não perdeu tempo e velozmente remeteu a Boechat um exemplar do livro "Crônicas do Futebol Pitoresco", acompanhado de arrebatadora e festiva dedicatória.

No dia 24 de dezembro/2008, Boechat registrou, ao microfone da Band News, o recebimento do livro, leu a íntegra da dedicatória e confessou que seu profundo amor ao Flamengo é irreversível. Contudo, proclamou que no seu coração há um espaço carinhosamente reservado ao América; homenageou a memória do desportista João Antero e destacou o sucesso da coluna dominical "Futebol Pitoresco", que - conforme afirmou - era saborosa e leitura obrigatória do jornal O Dia; e, para finalizar, disse que em meio ao Natal, iria se deliciar com o conteúdo do livro. (Leia sobre "Crônicas do Futebol Pitoresco" em Fotos e Memórias, neste site).

Consagração na memória do futebol brasileiro

O Museu do Futebol, inaugurado em 2008 no Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho (o Pacaembu, São Paulo), terá no final de 2011 o Centro de Referência do Futebol Brasileiro, cujo objetivo é a preservação de todos os aspectos históricos desse esporte, através de fontes de estudo e pesquisa, com acesso gratuito ao público.

Em fevereiro/2011, Clara Azevedo, diretora executiva do Instituto de Arte do Futebol Brasileiro (do Museu do Futebol), solicitou a doação de 2 exemplares do "Crônicas do Futebol Pitoresco", para inclusão na biblioteca da instituição. Um fato que muito honra a memória de João Antero de Carvalho e amplia a repercussão das suas realizações na literatura esportiva.

Gratificante apreciação de João Havelange

A importância de "Crônicas do Futebol Pitoresco" vem se propagando ao longo do tempo, emocionando aqueles que têm sensibilidade para cultuar o passado. Em 15 de abril de 2011, João Havelange remeteu a Murilo Brasil a seguinte carta:

"Com sua amável carta de 5-4-11 recebi o livro de autoria de João Antero de Carvalho intitulado 'Crônicas do Futebol Pitoresco'. Inicialmente queria dizer que recordar é retornar às nossas memórias o valor de uma amizade que será para todos nós inesquecível.

Pela sua gentileza, meu caro Murilo, em lendo esse livro recordei momentos de muita felicidade e que me fizeram voltar ao período com muita alegria.

Meu caro Murilo Brasil, lhe agradecendo pela sua gentileza receba com minha estima o meu abraço".

Segue texto em "Fotos e Memórias"

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João Antero de Carvalho - Vida e Obra

 

Eliane Wasinger Lustosa Brasil - 2004  -  Reformulado -julho/2011