Ao América, João Antero sempre dedicou profunda fidelidade, sentimento que ele registrou no capítulo Gratas Lembranças, inserido no seu livro de memórias lançado em 2003, intitulado Louvado seja ele em nome do Brasil (título inspirado nas palavras de Humberto de Campos no prefácio do livro didático referido anteriormente). Eis a transcrição do capítulo:

"Da época em que tive participação ativa na política do América, evoco cinco episódios que assinalaram o alto nível de prestígio do clube num tempo distante. Em 1948, dividi com Giulite Coutinho a chefia da delegação na excursão à Colômbia e ao Equador, quando enfrentamos o Medellin, os Millonaros, o Alianza de Lima (que excursionava em terras colombianas), um selecionado de Quito e outros times de expressão naqueles dois países. Foram 8 jogos e 8 vitórias que nos proporcionaram um regresso triunfal.

Em 1950, após a decepção da derrota do Brasil frente ao Uruguai, houve receio de que o inesperado revés, abalando a auto-estima do brasileiro, provocasse desalento e desinteresse do torcedor pelas competições regionais. O gigantesco Maracanã poderia ficar às moscas, inútil em sua grandeza. Mas foi o América, no campeonato daquele ano, que através de um futebol alegre, artístico, o “tico-tico no fubá”, preservou o interesse do carioca pelo futebol. Somente a falta de reservas, nos três últimos jogos, é que tirou dos rubros o título de campeão. Fomos o vice-campeão mais aplaudido do futebol do Rio de Janeiro em todos os tempos.

Em 1951, o famoso Arsenal de Londres veio ao Brasil para jogar contra o Vasco, campeão carioca do ano anterior. Todavia, os cruzmaltinos não se sentiram em plena condição para enfrentar o poderoso clube inglês, alegando que seus melhores jogadores estavam contundidos. Assim, recaiu sobre o América o difícil compromisso contra o melhor time da Inglaterra. Os rubros, que haviam regressado três dias antes de cansativa excursão ao Peru e Equador, aceitaram o desafio e, no Maracanã entusiasmado, conquistaram espetacular vitória por 2 x 1. Conforme está inserido no livro “Campos Sales, 118 – A História do América”, de Orlando Cunha e Fernando Valle, os dirigentes do Arsenal fizeram questão de escrever, sob a foto daquele esquadrão brasileiro que tanto os encantara, o seguinte registro:

'Rendemos nossa homenagem ao time que pratica o melhor futebol do Brasil, aos seus brilhantes passes e controle de bola'.

Não foram diferentes os comentários da imprensa britânica sobre a admirável técnica da equipe rubra.

Contudo, o grande feito do América em 1951 ocorreu no Estádio Centenário, de Montevidéu, quando os uruguaios em meio a grandes festas cívicas comemoravam o 1º aniversário da vitória sobre o Brasil na final da Copa do Mundo no Maracanã. O América foi convidado para enfrentar o Peñarol, com oito campeões mundiais, num jogo que seria o ponto alto dos festejos. Diante da torcida que superlotava o Centenário, nosso time bateu categoricamente os uruguaios por 3 x 1, aplicando-lhes um histórico 'banho de bola'.

O jogo seguinte, dentro da programação cívico-futebolística, seria contra o Nacional, mas este, ajuizadamente, fugiu da raia, não querendo arriscar-se a sofrer o mesmo vexame sofrido pelo Peñarol.

Em 1953, fomos à Europa e África, quando o América jogou contra equipes de destaque, Benfica (Portugal), Torino e Lazio (Itália), Rot Weiss (Alemanha), Stade Reims (França), Rapid (Áustria), além de outros clubes, obtendo 14 vitórias contra apenas 3 derrotas e 1 empate. A excursão durou dois meses, com jogos em 8 países e 11 cidades.

Além dos episódios citados, lembro que naqueles tempos, fins dos anos 40 e inícios dos anos 50, vivi algumas peripécias, consequências da minha participação na política do clube. No decorrer da presidência de Max Gomes de Paiva, todos os esforços foram preferencialmente direcionados à construção de um estádio à altura do prestígio da agremiação, um período marcado por intensa ebulição administrativa, desencontro de opiniões, sérias divergências, crises generalizadas. O futebol sofreu as turbulências, acrescidas de rumorosas substituições de técnicos. Na qualidade de diretor do Departamento de Futebol, cargo que assumi em abril de 1948, por vezes, fui levado a assumir provisoriamente o comando da equipe, e até que não me saí mal na inesperada função . . .

Em setembro de 1948, ocorreu fato de enorme repercussão no futebol, envolvendo a vinda do meia-esquerda Ranulfo, sensação nos gramados da Bahia. Embora previamente acertado com o América, o craque foi assediado por outros clubes, o que provocou intenso noticiário em jornais e rádios. Para evitar o cerco, o risco de aliciamento, escondi o cobiçado atacante na minha casa em Teresópolis e, assim, garanti a sua integração ao elenco rubro e a formação daquela famosa linha de frente que tanto se destacou em gramados brasileiros e internacionais: Natalino, Maneco (o “Saci de Irajá”), Dimas, Ranulfo e Jorginho.

O América, tenho absoluta convicção, haverá de recuperar todo o esplendor do passado para que suas glórias não fiquem apenas nos troféus das prateleiras, nos arquivos empoeirados e em livros de memórias".

Em 1968, Antero lançou o livro “Torcedores de Ontem e de Hoje”, com cerca de 400 páginas, rapidamente esgotado, enfocando 57 personagens, entre dirigentes, chefes de torcidas, jornalistas, artistas, magistrados, além de gente simples que se tornou conhecida através daquela obra. Num trecho da apresentação, o literato Ângelo Raimundo assim descreve os torcedores inseridos no livro:

(...) intensamente humanos no horror do sacrifício diário e contínuo pelos seus clubes, o sofrimento, a angústia, a alegria, a imensa alegria, a inenarrável alegria de uma vitória sobre um clube rival. Eles são assim, dessa mesma argila futebolística, criados por um mesmo Deus que na mesma condição de um triunfo ou de uma derrota do clube os irmana e os exalta na perfeita sublimação de uma pureza juvenil, intacta através do tempo, da idade, das condições sociais e mentais. (...)

Inconsciente coletivo

A convicção de João Antero na recuperação do América F. C. (veja linhas acima) tornou-se admirável realidade quando o clube classificou-se para a final da Taça Guanabara, de 2006, contra o Botafogo. As vitórias do time americano naquela competição foram despertando esperanças de torcedores e, principalmente, sentimentos latentes de adeptos de outros clubes e até, por incrível que pareça, de muitos que são indiferentes ao futebol. Foi a plena confirmação de ser o América o 2º time de todos ou, pelo menos, da grande maioria.

Mesmo botafoguenses não disfarçavam uma certa simpatia pelo América, inclinados a aplaudir os rubros, no caso de uma vitória americana - o que não ocorreu devido à desastrosa e pecaminosa arbitragem prejudicial ao clube de Campos Sales.

Contudo, o episódio foi revelador da presença do América no coração de todos, o que lhe propicia uma força considerável para a total recuperação do seu prestígio. Uma clara manifestação de inconsciente coletivo. No íntimo de flamenguistas, vascaínos, tricolores, botafoguenses e outros está a presença de Lamartine Babo, glória da música popular brasileira, autor dos hinos de todos os clubes do Rio e, acima de tudo, torcedor do América. Também presentes estão, Francisco Alves, Sílvio Caldas, Carlos Galhardo, Mário Reis e tantos outros luminosos astros da nossa cultura musical, que a passagem do tempo não apaga, pois tornaram-se atemporais.

Crianças e jovens também são envolvidos nesse inconsciente coletivo, pois sempre há, em suas famílias, ascendentes que torciam ou torcem pelo América, criando, assim, uma força atávica impossível de não ser sentida.

Segue texto em "Torcedores de Ontem e de Hoje"

   Página inicial                                                                                                                                                     Subir

 

João Antero de Carvalho - Vida e Obra

 

Eliane Wasinger Lustosa Brasil - 2004  -  Reformulado -julho/2011