Prefácio de Nelson Rodrigues “Torcedores de Ontem e de Hoje” foi iluminado pelo prefácio de um astro da literatura brasileira, o imortal teatrólogo Nelson Rodrigues, entronizado como o maior torcedor de toda a história do Fluminense. Aqui estão as palavras prefaciais do autor de “Vestido de noiva”, “Perdoa-me por me traíres”, “O Beijo no asfalto” e outros sucessos da dramaturgia brasileira: “Amigos, eis aqui um livro sobre o torcedor de futebol. É o colega João Antero de Carvalho quem o assina. Trata-se de um velho profissional, denso de experiência e observação, que vem acompanhando, através das gerações, os nossos clássicos e as nossas peladas. Creio que o nosso Antero percebeu o que me parece ser uma dessas verdades inapeláveis e eternas: - na hierarquia do futebol, o torcedor está em primeiro lugar. O leitor pode perguntar: - ‘E o craque?’ Eu sei que o craque é uma figura de alta transcendência. Mas não há santo sem devoção e o torcedor é, justamente, o devoto, o crente fidelíssimo do jogador. Portanto, andou bem Antero de Carvalho quando pôs o torcedor no coração da ópera futebolística. Eu disse ‘ópera’ quase sem querer. Mas acertei, por acaso, mas acertei. O futebol tem o apelo, o patético, o dramatismo da ópera. Tudo que acontece, em campo, vem com um tom operístico. Os sujeitos se estraçalham em campo: e, nas cadeiras, arquibancadas e gerais, há uivos, urros, tapas e palavrões. Com orquestra, certos clássicos e certas peladas teriam a potência emocional de ‘Rigoletto’, ‘Força do Destino’, ‘Trovador’, ‘Cavalleria Rusticana’ etc. Pode parecer, aos menos esclarecidos, que só o craque molha a camisa. Doce e ledo engano. O torcedor faz um esforço físico muito mais pesado. Uma vitória, ou uma derrota, pode assassinar o desgraçado que torceu. Lembro-me de uma cena que me parece antológica. Era a finalíssima Bangu x Flamengo. O rubro-negro parecia ter entrado em campo debaixo do seguinte dilema paraguaio: - ‘vencer ou perecer’. O Estádio Mário Filho era um mar, uma flora de bandeiras flamengas. Começa o jogo. No primeiro minuto o rubro-negro fica com dez. Carlos Alberto contundiu-se para toda a partida. A colossal torcida emudeceu. Essa baixa fulminante não estava nos cálculos de ninguém. Mas o Flamengo, ainda assim, luta, ferozmente. Até que, num ataque flamengo, cruzam na área do Bangu. E Silva mete a cabeça. Amigos, saiu um pavoroso tiro de meta. A defesa de tal cabeçada era uma rigorosa impossibilidade. Deus, lá em cima, há de ter pensado: - ‘Essa não tem castigo!’ Mas Ubirajara fez um milagre, o cínico, o deslavado milagre. Tocou com os dedos na bola. Esta foi estourar na trave. Aí, nesse lance, o Flamengo perdeu o jogo e o bicampeonato. Mas o que eu queria dizer era o seguinte: - ao meu lado, estava um enorme crioulão flamengo – plástico, lustroso, ornamental. Daria um espetacular escravo núbio num filme de Cecil B. De Mille. Pois a frustração derrubou o gigante. Ele desabou como um fuzilado. Aos meus pés, arquejava como se aquilo fosse a dispneia pré-agônica. Por aí é que se vê que o torcedor vive mais o lance do que o craque. Nas suas reações tempestuosas, ele dá arrancos triunfais de cachorro atropelado; ou sobe pela parede como uma lagartixa profissional. A virtude de Antero de Carvalho foi valorizar, dramatizar, o comportamento do torcedor, os quadros plásticos que, sem querer e sem saber, ele realiza, através dos 90 minutos de cada clássico e de cada pelada. O colega aplica, no seu livro, toda a sua gigantesca vivência de futebol. Eis aí o fascinante romance do torcedor”. Este prefácio mereceu uma ilustração expressionista feita pelo laureado pintor Mário Agostinelli, retratando o momento em que a frustração derrubou o torcedor, fazendo-o desabar como um fuzilado. A dramática cena, magistralmente descrita por Nelson Rodrigues, ocorreu na decisão do Campeonato Carioca de 1966. Valiosas Apreciações Todos os 57 torcedores, dos vários
clubes do Rio, mereceram igual destaque, com excelentes ilustrações
do desenhista Humberto Marinho; textos emoldurados por trovas e versos
de 14 poetas de relevo na literatura brasileira. Eis alguns dos torcedores
apresentados no livro:
Lamartine Babo, Ari Barroso, Dorval Lacerda, Silveira Sampaio, Luís Gallotti, Claudionor de Souza Lemos, Max Gomes de Paiva, Antônio Gomes de Avelar, Martinho Garcez Neto, Marques Rebelo, Vargas Neto, Isaac Amar, Sílvio Pacheco, Wolney Braune, Marcos de Mendonça, Manduca (o ciclista torcedor), Canor Simões Coelho, Antonio Rodrigues Tavares e Dulce Rosalina. O poeta Carlos Drummond de Andrade assim manifestou sua impressão sobre o livro: “Estou-me deliciando com as estórias de ‘Torcedores de Ontem e de Hoje’, que me fazem penetrar no humor do futebol, tão bem documentado e interpretado nas páginas do seu livro”. Em janeiro de 2005, foi lançada a 2ª edição, condensada, de "Torcedores de Ontem e de Hoje", prefaciada por Francisco Horta, o "Eterno Presidente do Fluminense". Nas orelhas do livro, Murilo Brasil escreveu, sob o título "O Mundo Azul de Eliézer Rosa", o seguinte texto: Em 1971, três anos após o lançamento da 1ª edição de "Torcedores de Ontem e de Hoje", o juiz Eliézer Rosa, o mais notável precursor da pena alternativa no Brasil, um humanista e sereníssimo torcedor do América F. C. fez-me incisivo pedido: o de incentivar Antero a lançar uma 2ª edição da obra ou um 2º volume retratando outros torcedores. Porém, apesar de reiteradas tentativas, Antero sempre envolvido em múltiplas e trepidantes atividades não conseguiu atender ao pedido, não só de Eliézer Rosa, mas de muitos outros com desejo igual. Quase trinta e sete anos decorridos, aqui está a 2ª edição de "Torcedores de Ontem e de Hoje", certamente levando contentamento a Eliézer Rosa, hoje em altaneiras paragens do plano espiritual. É uma reedição condensada, na qual foi mantido o tempo da ação verbal, pois as figuras apresentadas escapam ao conceito de temporário. Silveira Sampaio, Ari Barroso, Fontainha, Lamartine Babo, Dulce Rosalina, "Tarzan", Juarez, "Tolito", "Grilo das Frutas", todos os cinqüenta e seis personagens, venceram o tempo e vivos estão nas lembranças do mágico mundo do futebol. O emprego das iniciais maiúsculas também foi mantido, pois acima de normas gramaticais está a visão subjetiva do Autor, o relevo que ele deu a cargos e instituições. A concepção da capa da presente edição, é de Nete Buback, hábil fotógrafa. Fotos que expressam o gestual de triunfo de torcedores de ontem e de hoje, tendo como adequados modelos braços e mãos de João Antero e do seu neto Felipe. Na 4ª capa, além da dupla, há braços e mãos de outros torcedores, tudo em meio ao predomínio do azul, a cor preferida e recomendada por Eliézer Rosa, que sempre ansiou por um mundo mais justo, mais fraterno e solidário, eternamente revestido da cor do céu. Ao final do livro, em duas páginas azuis, está a reprodução desta carta que Eliézer Rosa escreveu em 30 de março de 1981: "Meu boníssimo Amigo Dr. João Antero de Carvalho: Tive um encontro espiritual com o Arcanjo São Manduca, na noite que precedeu o dia de SÃO JOSÉ. Haveria uma dupla festa no Céu: a do dia do Santo e a da entrada do outono. Perguntei a São Manduca a razão de ele aparecer sobre o Corcovado e vestido daquela túnica longa e chapéu tricórnio. Ele respondeu que fora promovido à ordem de Arcanjo e aquela era a roupa obrigatória, e que aparecera sobre o Corcovado para lhe falar e mostrar-lhe sua nova função. Estava triste o santo, porque, como Arcanjo teve de deixar a bicicleta que não calhava bem com sua posição na hierarquia celeste. E explicou-me: - Depois que São Nelson Rodrigues chegou aqui e comecei a conversar com ele, senti necessidade de mudar. Havia um concurso aberto para Arcanjo e ele aconselhou-me a concorrer. Mas, eu não sabia português. Foi então a grande revelação e minha excepcional ajuda. São Nelson levara para o Céu, um livro intitulado TORCEDORES DE ONTEM E DE HOJE, para ler, porque, dizia ele, era o único livro, na matéria, que se poderia ler e nele aprender a história do América e a língua, dado que era obra muito bem escrita por um antigo professor de língua portuguesa. - Li e reli e treli o livro. Fiquei tão sabedor da língua que fui o primeiro colocado no concurso. Agora, visto este trajo com as cores do América e ando de livro na mão. Só há aqui um exemplar que todos querem ler, especialmente o Lamartine. O livro, meu irmão, é realmente encantador. Peça ao Professor Dr. João Antero de Carvalho que o reedite, pois estou informado de que está esgotadíssimo. E a bicicleta, São Manduca? Que é feito dela? Ele disse que de livro na mão era impossível dirigir e também que Arcanjo não poderia guiar bicicleta. Era uma infração às regras celestes. E, depois, acrescentou o Arcanjo São Manduca, - a leitura do livro absorve todo o meu tempo. Dei razão ao Arcanjo (santo sempre tem razão), porque TORCEDORES DE ONTEM E DE HOJE é um belo livro. Deverá ser reeditado, até porque o Arcanjo quer promover uma noite de autógrafos no Céu, com sua permissão. Quer que o Professor Dr. João Antero de Carvalho lhe mande mil exemplares. Aliás, ele acha que é pouco, tantos são os interessados no livro que, na frase do Arcanjo São Manduca, - é encantador e ensinante. Pede-me o Arcanjo São Manduca que você, meu caro Dr. João Antero, chegue à janela de seu luxuoso apartamento, às 21 horas do dia 1º de abril, e olhe para o Corcovado, onde ele se apresentará, numa aparição só para você, em agradecimento à ajuda que seu encantador e ensinante livro lhe deu para o concurso. Meu caro Dr. João Antero, como mudam até os santos, quando sobem na vida celestial. O Arcanjo está mudado, está importante e me disse que vai aparecer pouco para não desgastar a imagem. Já se está preparando para um concurso à ordem dos Querubins. Até na morte e lá no Céu há vaidades. Até os santos têm lá sua vaidadezinha. Entendi. É humano compreender-se o jeito de ser dos santos, dos altos espíritos que desencarnaram e ainda não se aperfeiçoaram de todo. Está dado o recado do nosso Arcanjo São Manduca, o primeiro brasileiro que alcançou tão alto grau na hierarquia celeste. Apareça à janela, no dia e hora pedidos por São Manduca, o Arcanjo brasileiro, que, no Céu, 'caititua' seu livro encantador e ensinante - TORCEDORES DE ONTEM E DE HOJE. Abraços santificados do Eliézer" Manduca virou praça pública Manduca em sua alegre vida terrena causava profunda impressão em Eliézer Rosa, virando o torcedor predileto do inesquecível magistrado. Manduca também foi personagem do livro "Rio de Janeiro - Estudos Sociais", de Fernanda Noronha e Dalva do Monte, alvo do seguinte texto: "Nascido em 1894 no bairro Cidade Nova, Manoel Coelho Mendes - que todo o Rio de Janeiro conhecia como o Manduca do América - pedalou à média de 25 km por dia, de 1907 a 1969, por detestar o bonde, o automóvel e o ônibus, tanto para trabalhar, quanto para ver os jogos do seu time ou defender o Ciclo Suburbano Clube em competições de sua juventude. Depois de consumir 200 camisas do América em meio século de acenos a tantos que lhe saudavam à passagem, sua bicicleta foi atropelada e ele virou saudade. Seu último aceno seria um alerta para os ciclistas dos tempos modernos". Manduca, em 62 anos de trajeto pelas ruas do Rio, percorreu cerca de 570 mil quilômetros, equivalente a, aproximadamente, 14 voltas à Terra através da Linha do Equador. Sua bicicleta, em maio de 1977, foi levada à antiga sede do América e lá ficou exposta em local condigno, mas acabou sumindo misteriosamente durante as obras que deram origem à atual sede. Em 27 de outubro de 2007, a Tijuca passou a ter a Praça Manoel Coelho Mendes (Manduca), em memória do esfuziante torcedor, para orgulho de seus familiares, entre eles Edna Maria, neta do ciclista, cheia de amor pelo América, casada com o rubro-negro José Rodrigues, o Zézinho, um dos mais antigos funcionários de "O Dia", somente superado, em tempo de serviço ao tradicional matutino, por Zé Grande, o mais célebre repórter policial da história do Rio, e pelo silencioso e competente Cabral, um especialista em instalações hidráulicas. Sucesso no Rádio O livro foi amplamente comentado pela crônica esportiva carioca, valendo destacar os enfoques dados por Doalcei Camargo, Luís Ribeiro, Jorge Nunes e outros notáveis participantes do programa "Bola em jogo", da Rádio Tupi, em 17-4-05. Na Rádio Globo, vários exemplares da 2ª edição do livro de João Antero de Carvalho foram sorteados entre os ouvintes do programa "Enquanto a bola não rola", nos dias 17 e 31 de julho e 7 de agosto de 2005, em meio aos comentários de Luís Mendes, Eraldo Leite e Juca Kfouri, ases do radialismo esportivo. Por sua vez, Zair Cançado, um dos nomes mais notáveis do rádio brasileiro, solicitou à família Antero de Carvalho exemplares de livros para sorteio no programa "A banda de música e seus convidados", que é apresentado na Rádio Bandeirantes. Em 22 de junho de 2007, o criador e apresentador do programa, enfocando a figura de João Antero de Carvalho, anunciou o sorteio dos livros, incluindo "Louvado seja ele em nome do Brasil" e "Crônicas do Futebol Pitoresco" entre a sua numerosa audiência, em todo o território nacional. Tia Ruth O livro de João Antero, sem similar na história do futebol brasileiro, inclui um seleto tipo de torcedor que, pelas características de cada um, alcançou enorme popularidade. Com exceção de Jaime de Almeida (o comandante da "Charanga do Flamengo" nos anos 40 e 50) que por falta de espaço ficou ausente, desfilam no livro, além de Manduca e Dulce Rosalina (já mencionados), o botafoguense Tarzan, os vascaínos Cartola e Ramalho, o bangüense Juarez, além de "Bolinha", o ruidoso tocador de sino da torcida do Fluminense. Gente inflamada das gerais e arquibancadas que conquistou lugar nos anais do futebol carioca. Dessa admirável estirpe só resta, entre nós, a festejada Tia Ruth, uma espécie de "último dos moicanos". Ao longo de muitos anos, ela foi personagem freqüente do "Futebol Pitoresco", pelo seu obstinado amor ao América, permanentemente alimentado por uma esfuziante vitalidade que a todos impressiona e contagia. Segue texto em "Futebol Pitoresco"
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Eliane
Wasinger Lustosa Brasil - 2004 - Reformulado -julho/2011 |